EVANGÉLICOS – O que dizem os evangélicos a favor e contra Bolsonaro

 

Segundo pesquisa Datafolha de quinta-feira, 71% dos evangélicos do país declaram voto em Jair Bolsonaro no segundo turno. Ele vence com folga em todos os subgrupos – evangélicos tradicionais, pentecostais, neopentecostais e outros setores. Outros 29% dos evangélicos escolhem Haddad.

Em nível nacional, Bolsonaro lidera os levantamentos de intenção de voto com 59%, ante 41% de Haddad.

Segundo a BBC News Brasil, que conversou nos últimos dias com evangélicos de diversas igrejas para entender o papel da religião na opção de voto em cada um dos candidatos, concluiu que entre os apoiadores ouvidos pela reportagem, muitos associam o candidato do PSL à perspectiva de “resposta” a algumas mudanças de comportamento ocorridas nos últimos anos, como o crescimento do movimento LGBT, feminismo, discussões de identidade de gênero e novos formatos familiares, como as homoafetivas.

Outro argumento recorrente é o de que Bolsonaro seria um exemplo de político “ficha limpa”, sem envolvimento em casos de corrupção, em contraponto ao partido de Lula.

Já os evangélicos contrários ao deputado argumentam que sua plataforma política e seus discursos estão em desacordo com valores cristãos importantes, como amor ao próximo, a pregação da paz e a igualdade entre os seres humanos. Eles alegam que o voto evangélico em Bolsonaro, político que já defendeu a tortura contra opositores, desrespeita a trajetória do principal símbolo do cristianismo, Jesus Cristo.

O que dizem os evangélicos a favor de Bolsonaro?

A campanha e apoiadores de Bolsonaro conseguiram colar no candidato do PT a imagem de um governo que iria ensinar sexo na escola e estimular homossexualidade, o que nunca foi cogitado por Haddad. Para isso, informações falsas sobre o petista foram disseminadas, como o fato de ele ser ministro da Educação quando o governo propôs distribuir a professores um material contra homofobia apelidado por opositores de “kit gay” – no entanto, a cartilha nunca chegou a ser enviada aos profissionais ou escolas.

Na semana passada, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu Bolsonaro de divulgar vídeos associando Haddad ao “kit-gay”.

Os líderes evangélicos que apoiam Bolsonaro

O sucesso do candidato do PSL também se explica pelo apoio de líderes de grandes igrejas, como o bispo Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus, e o pastor Silas Malafaia, da Vitória em Cristo. Para pedir votos ao deputado, eles também citaram o chamado “kit-gay”.

Os professores estão instruindo (os alunos): ‘olha, você tem direito de escolher ser menina se você é menino. Ou você, menina, pode escolher ser menino’. É isso que estamos vendo nas escolas”, disse Edir Macedo.

Malafaia falou de corrupção, mas também repetiu o discurso conservador em defesa da família tradicional, formada por homem, mulher e filhos. “Esse cara (Bolsonaro) tem gana de melhorar o Brasil, temos que dar um basta a essa gente que roubou durante 13 anos. Bolsonaro é a favor dos valores de família, é contra essa bandidagem de erotizar criança em escola, que toda a esquerda quer.”

À medida que a proporção de evangélicos no país foi aumentando, também cresceu sua representação política. De acordo com dados do Datafolha, três em cada dez (29%) brasileiros com 16 anos ou mais atualmente são evangélicos. Em 2017, a Frente Parlamentar Evangélica tinha 178 integrantes, de um total de 510 deputados na Câmara.

Bolsonaro e os valores cristãos

Para o segmento minoritário contra Jair Bolsonaro, o principal argumento é o de que a postura do candidato é oposta ao que a Bíblia prega.

O escritor Miguel Del Castillo, que frequenta a igreja Comunidade de Jesus, diz que muitos evangélicos têm “fechado os olhos para o discurso de violência de Bolsonaro”. Para ele, a retórica replicada pelo candidato sobre “pessoas de bem” não bate com os valores cristãos.

“Partimos do pressuposto de que nenhum ser humano é intrinsecamente bom. É a doutrina do pecado universal, para o qual Jesus se apresenta como redenção. Se todos são pecadores, esse discurso de que há ‘pessoas de bem’ é contraditório. Jesus falava em amar inclusive os inimigos.”

Qual é a influência dos líderes das igrejas no voto dos evangélicos?

Para o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas, a transferência dos votos dos fiéis para um candidato apoiado pelos líderes não é automática. “Esse eleitorado não segue bovinamente a determinação do seu líder religioso”, diz.

Já Amy Erica Smith, professora de ciência política da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, diz que os evangélicos criticam líderes que se posicionam politicamente.

“Isso muda um pouco quando o entrevistado fala do seu pastor especificamente. Há uma tendência a perdoar mais nos casos concretos”, diz ela, que há anos estuda a intersecção entre religião e política no Brasil.

Dados de sua pesquisa com evangélicos nas eleições de 2014 apontam que o apoio de líderes não importou para a decisão da maioria dos ouvidos. “A transferência não é automática.”

Ela diz que, quanto mais conservadora a igreja, mais coeso tende a ser o perfil de voto das pessoas que a frequentam.

No caso de 2018, quanto mais a pessoa frequenta sua igreja, maior a chance de ela declarar voto em Bolsonaro e não em Haddad. “É forte a correlação entre preocupação com questões sexuais e de gênero com o apoio a Bolsonaro, e não a Haddad”, diz.

No entanto, isso não acontece porque o pastor orienta as escolhas dos fiéis, mas porque eles, em geral, convivem muito e têm valores e formas de pensar parecidas. “A orientação do pastor faz parte, mas não é o fator mais importante.”

“Isso indica que há muito ativismo dentro das igrejas dos apoiadores de Bolsonaro”, diz.

Na avaliação dela, a maior parte dos evangélicos gostaria, em tese, de votar em um cristão, mas considerações ideológicas podem pesar mais, como parece ocorrer neste ano – apesar de ter sido batizado por um pastor em Israel, Bolsonaro se declara, oficialmente, católico.

Com informações da BBC NEWS

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